Praticante de taekwondo usa a arte marcial contra o casamento infantil em Zimbabué

Uma jovem praticante de taekwondo no Zimbabué está a utilizar esta arte marcial para aumentar a autoestima das raparigas e ajudá-las a lutarem contra o casamento precoce, num país onde crianças com apenas 10 anos são forçadas a casar-se.

Aqui não há muita gente a fazer taekwondo, por isso é fascinante para as raparigas, tanto casadas como solteiras. Eu utilizo-o para chamar a sua atenção”, disse Natsiraishe Maritsa, de 17 anos, uma fã de artes marciais desde os cinco anos de idade.

A jovem utiliza o taekwondo para reunir jovens raparigas e mães adolescentes e para as motivar contra o casamento infantil.

No minúsculo e poeirento quintal à porta da casa dos seus pais, na localidade de Epworth, cerca de 15 quilómetros a sudeste da capital, Harare, crianças com apenas quatro anos de idade, algumas filhas das antigas colegas de Natsiraishe, que já estão casadas, fazem fila e seguem entusiasticamente as instruções: Esticar, pontapear, bater, socar e poupar.

Após a aula, falam sobre os perigos do casamento infantil. As recém-casadas, com os filhos ao colo, são as primeiras a falar, contando como os seus casamentos se transformaram em escravidão, incluindo abuso verbal e físico, violação conjugal, complicações de saúde relacionadas com a gravidez e fome.

“Não estamos preparados para esta coisa chamada casamento. Somos demasiado jovens para isso”, disse Maritsa à agência AP, após a sessão, que garantiu ser “um espaço seguro” para as raparigas partilharem ideias.

Além do treino físico, o taekwondo promove o desenvolvimento da mente e os seus praticantes também aprendem lições comportamentais no decurso dos treinos, de forma a melhorarem a sua disciplina, concentração e autoconfiança. Neste caso, o tema é o casamento precoce.

Nas aulas de Maritsa é relevado o papel das mães adolescentes, normalmente ignorado nas campanhas contra os casamentos de crianças.

“Uso as suas vozes, os seus desafios, para encorajar as raparigas jovens ainda não casadas a ficarem longe da atividade sexual e do casamento precoce”, contou.

Nem rapazes nem raparigas podem casar legalmente até aos 18 anos de idade, de acordo com a lei zimbabueana, promulgada após o Tribunal Constitucional ter derrubado, em 2016, a legislação anterior que permitia às raparigas casarem aos 16 anos.

No entanto, a prática continua a ser generalizada nesta pobre região da África Austral, onde se estima que 30% das raparigas se casam antes dos 18 anos, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O casamento infantil é predominante em toda a África e a crescente pobreza no meio da pandemia de covid-19 tem aumentado a pressão sobre as famílias para que casem as suas filhas jovens.

Para algumas famílias pobres do Zimbabué, casar uma filha jovem significa menos um fardo e o preço da noiva pago pelo marido é frequentemente “utilizado pelas famílias como meio de sobrevivência”, de acordo com a organização Girls Not Brides, que se dedica a campanhas para acabar com os casamentos de crianças.

Algumas seitas religiosas encorajam raparigas com menos de 10 anos a casar com homens muito mais velhos para “orientação espiritual”, enquanto algumas famílias, para evitar a “vergonha”, forçam as raparigas que praticam sexo antes do casamento a casar com os seus namorados, de acordo com a organização.

Maritsa, através da sua associação chamada Vulnerable Underaged People’s Auditorium, espera aumentar a confiança das raparigas casadas e solteiras através das aulas de artes marciais e das discussões que se seguem.

A proibição no Zimbabué de reuniões públicas imposta para tentar abrandar as novas infeções de covid-19 forçou Maritsa a suspender as sessões, que espera retomar assim que o confinamento for levantado.

“As jovens mães passam de desesperadas a habilitadas a usarem as suas histórias para dissuadir outras raparigas de caírem na mesma armadilha”, disse Maritsa, referindo que iniciou o projeto em 2018, depois de ver as suas amigas saírem da escola para se casarem.

De acordo com a Unicef, todos os anos cerca de 12 milhões de raparigas casam antes dos 18 anos.(LUSA)