Resposta do governo de Moçambique aos ataques está a agravar problema em Cabo Delgado

A ex-representante norte-americana na Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), Michelle Gavin, defende que as falhas da governação moçambicana contribuíram para agravar os problemas em Cabo Delgado, situação que revelou “uma profunda fraqueza” do Estado.

Num artigo publicado pelo Council on Foreign Relations (CFR), um grupo de reflexão (‘think thank’) com sede em Washington, nos Estados Unidos, a especialista em assuntos africanos fala dos “sinais de alerta” sobre a “corrupção endémica” e o “crescimento que nunca foi inclusivo” do país.

De acordo com a especialista, esses sinais de alerta foram, durante anos, ofuscados pela “narrativa prevalecente” sobre “os dividendos de paz, crescimento económico e a promessa dos extraordinários recursos naturais do país”.

“Agora as manchetes são dominadas pelos combates em Cabo Delgado, onde insurgentes ligados ao ISIS [Estado Islâmico] aterrorizaram a população, matando mais de 1.500 pessoas, deslocando mais de 300.000, criando uma crise de segurança alimentar, e expondo a profunda fraqueza do Estado”, escreve Michelle Gavin.

Para a também ex-embaixadora norte-americana no Botsuana, “essa fraqueza tem sido exacerbada por redes criminosas internacionais ativas há muitos anos no país” que tiram partido de uma cultura política que permite aos poderosos contornar a lei.

“Os funcionários moçambicanos esconderam empréstimos secretos de cidadãos e parceiros internacionais, levando a um escândalo generalizado que envolve funcionários aos mais altos níveis. Do tráfico de heroína ao contrabando de rubis, o crime entrelaçou-se com o Estado, deixando-o menos capaz e menos confiável”, aponta.

Para Michelle Gavin, este ambiente provou “ser terreno fértil para extremistas violentos”, que desde 2017 têm vindo a aumentar a frequência e a sofisticação dos seus ataques na região de Cabo Delgado.

“A resposta do Governo pode muito bem estar a agravar o problema”, sustenta, sublinhando os abusos cometidos pelas forças de segurança, que estão a afastar as populações.

“As falhas destas forças levaram Moçambique a recorrer à ajuda de mercenários estrangeiros. O Estado simplesmente não tem a capacidade de fornecer segurança básica dentro das suas fronteiras”, salienta.

Gavin assinala que a situação está a deixar os países vizinhos e os parceiros internacionais “cada vez mais desconfortáveis” e que as multinacionais que investiram na exploração dos campos de gás natural naquela província moçambicana querem ver os seus investimentos assegurados.

“A fragilidade de Moçambique tem sido evidente durante anos. Talvez se, há uma década, a comunidade internacional tivesse gastado mais energia a apoiar a sociedade civil que chamou à atenção para estes problemas e pressionado mais para encontrar soluções, Moçambique hoje poderia demonstrar mais resiliência, e as perspetivas seriam menos sombrias”, conclui.

Michelle D. Gavin é especialista sénior do CFR, tendo sido anteriormente diretora do The Africa Center, instituição dedicada a aumentar a compreensão da África contemporânea.

De 2011 a 2014 foi embaixadora dos Estados Unidos da América no Botswana, e serviu simultaneamente como representante na SADC.

O Council on Foreign Relations é um grupo de reflexão independente fundado em 1921 com o objetivo ajudar a compreender melhor o mundo e a política externa dos Estados Unidos e de outros países.(LUSA)