Financiamento e reintegração são desafios para desarmamento em Moçambique

O enviado pessoal do secretário-geral das Nações Unidas a Moçambique apontou hoje o “financiamento e reintegração social” dos antigos guerrilheiros da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) como desafios para o processo de desarmamento, desmobilização e reintegração (DDR).

Ao longo do processo pudemos constatar que o primeiro problema dos combatentes não é somente o dinheiro, mas é a integração social, fazer parte de um grupo, de uma família, porque estar no mato por 20 anos é complicado”, declarou Mirko Manzoni.

O responsável falava durante uma palestra denominada “Desmilitarização, Integração e Reconciliação”, promovida pela Universidade Pedagógica de Maputo.

Para Mirko Manzoni, a reintegração dos guerrilheiros da Renamo (principal partido da oposição) vai ser o processo “mais longo”, afirmando que há alguns casos “dramáticos” de combatentes que regressaram às suas comunidades e foram atacados.

“Temos alguns casos que foram dramáticos. São poucos, mas alguns graves. Estamos a investigar”, disse.

Na palestra, Manzoni afirmou ainda, sem avançar números, que apesar das “respostas positivas” por parte dos doadores, o financiamento é também um dos desafios para o processo de DDR em Moçambique.

“Reintegrar com dignidade os combatentes é um processo que pode ser difícil, mas é necessário para a reconciliação do país”, sublinhou.

Em relação ao grupo de dissidentes da Renamo, a autoproclamada Junta Militar, a quem as autoridades moçambicanas atribuem a autoria de ataques a civis em contestação ao acordo de paz de 2019, o enviado de Guterres reiterou que “há abertura para o diálogo”, sublinhando que o uso da guerra e do conflito para impor uma visão é “bárbaro”.

“Precisamos de um sinal do lado de Mariano [Nhongo, líder do grupo] para dialogar, matar não é uma solução”, afirmou.

Segundo Mirko Manzoni, desde que arrancou o processo de DDR em Moçambique, um total de 985 guerrilheiros do braço armado da Renamo já foram desmobilizados.

Ou seja, do total de 5.000 guerrilheiros, há ainda cerca de 4.000 por abranger no processo.

Depois de um arranque simbólico em 2019, o DDR esteve paralisado durante vários meses, tendo sido retomado a 04 de junho.

O processo é resultado do Acordo de Paz e Reconciliação Nacional assinado a 06 de agosto de 2019 entre o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e o líder da Renamo, Ossufo Momade.

O acordo é contestado pela Junta Militar da Renamo, que é acusada de atacar aldeias e autocarros nalguns troços de estrada nas províncias de Sofala e Manica, centro de Moçambique, mas o grupo dissidente tem repetidamente rejeitado envolvimentos nos ataques.(LUSA)